quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sobre Bienal e Philip Glass

[0] Definitivamente eu estou travado, como se tivesse sido enfeitiçado por alguma coisa. Fato é que não consigo pensar em absolutamente nada, e quando digo absolutamente é porque estou além do limite daquilo que pode ser descrito. Onde nada faz sentido. Pode parecer pretensioso, ou mesmo uma falácia ingênua, mas sou sincero quando digo - não tem como. A sensação que tenho é que tudo é qualquer coisa e que palavras não passam de palavras.

[1] Estive envolto em artes por um período relativamente longo e confesso que nunca fui capaz de descrever os processos e sentidos da arte. Por muitas vezes tentei expressar tudo aquilo que me fazia marejar os olhos, mas vãs foram minhas palavras. Sentia que elas eram vazias e destituídas de sentido no ato mesmo em que as proferia. Tentei escrever poesia; aprendi técnicas para fazer filosofia e a pensar argumentativamente; estudei sobre as palavras e seus significados e refleti, muito refleti sobre a natureza da arte, ou ainda, o que faz dela aquilo que ela é, e hoje confesso – abandonei qualquer tentativa de tentar explicá-la. E não porque não faça sentido, mas antes, pois ela é de todo impossível descrever. Através da arte captamos algo de absoluto, entretanto não somos capazes de nos expressar por meios absolutos. A arte é como que um ponto cego da linguagem – que se mostra incapaz de capturar por meio de conceitos e proposições a essência mesma daquilo que ela tenta conter ou explicar.

A arte não se permite capturar por mera descrição. Ela é para nós um ato mental indescritível que está para além da significação possível. Não que com isso ela tenha apenas valor subjetivo, mas porque a lógica não é capaz de capturar o significado da arte ou da experiência artística. Nós não somos capazes de expressar por meio da linguagem aquilo mesmo que nos toca na arte. E é essa a razão da confusão que se faz acerca do valor da arte. Muitos dizem que ela é relativa, justificados pela total incapacidade de criar uma teoria objetiva da arte convincente. Porém, tal razão não se dá porque a arte é relativa, mas antes porque o pensamento que se expressa por meio da linguagem é incapaz de apreender algo de valor absoluto. [caberia fazer uma distinção entre os modos de dizer o relativo para atentar para o fato de que sob um aspecto ela é de fato relativa, mas que isso não implica que ela seja em si mesma relativa].

[2] A arte só se expressa em sua criação. A contemplação é uma atividade como que passiva em relação à arte.

[3] Toda questão é saber se é possível fazer algum tipo de investigação sobre o que é belo, i. e., se é possível enunciar proposições que digam respeito aquilo que realmente importa na arte, e que fundamenta o que ela é. Somos capazes de falar algo sobre o significado da arte ou aquilo que faz com que algo mereça tal crédito? Ou ainda, a linguagem é capaz de expressar com sentido proposições sobre a arte?

A primeira coisa a se notar é que qualquer enunciado acerca da arte contém aquilo que podemos chamar de valor. O valor do enunciado pode ter, por um lado, sentido absoluto, por outro, pode expressar um valor relativo. Assim, quando digo que algo me causa espanto, p. ex., está performance de Philip Glass em glassworks ou àquelas formigas da bienal, posso querer dizer que, a sua maneira, ambas são belas em dois sentidos completamente distintos. Por um lado, posso querer dizer que o músico toca a peça com um certo grau de excelência que excede em muito um padrão previamente estabelecido. Por outro, posso dizer que as formigas da bienal expressam aquilo mesmo que faz da arte aquilo que ela é, e, nessa medida, que transcende a nós mesmos. Nesse segundo sentido, se queremos dizer com isso que apreendemos a arte de modo absoluto, tudo bem. Porém, se queremos dizer que pensamos aquilo que há de mais absoluto na obra de arte, então temos um sério problema.

[4] Talvez uma analogia seja pertinente para ilustrar o que tenho em mente: - é comum entender a paixão como um estado do espírito que nos escapa completamente o controle. É em virtude disso que dizemos, p. ex., que nós não temos a capacidade de planejar por quem vamos nos apaixonar. Não adianta criar regras ou estabelecer critérios para se determinar uma paixão, pois, de um lado nós nos apaixonamos por algo na pessoa que é a primeira vista absolutamente indescritível, visto que nunca sabemos dizer o que exatamente faz com que nos apaixonemos por esta ou aquela pessoa. A paixão é algo que está para além da nossa capacidade lógico-racional, nós não podemos explicá-la nem antecipá-la de modo algum, ela simplesmente acontece e não nos fornece razões ou justificativas.

Nesses termos, digo que a experiência da arte é como a experiência de um “apaixonamento”. Quando nos apaixonamos nos entregamos para alguém sem garantias ou explicações, nós simplesmente nos apaixonamos e isso faz com que tudo mais faça sentido, apesar de não nos ser possível explicar com palavras o que faz com que nos apaixonemos por alguém. A experiência da arte e a experiência de se apaixonar são a mesma coisa, é uma entrega para algo que transcende a nós mesmos. É o reconhecimento de que há algo que nos é absolutamente indisponível e do qual não temos controle algum. Ambas as experiências geram espanto e estranhamento, prazer, medo ou angústia. E, nessa medida, são experiências indescritíveis de algo que está como que para além dos fatos que podemos falar.

Tanto a paixão quanto a arte são coisas que podemos apenas mostrar, mas que de todo é impossível dizer, i. e., nós podemos apresentar exemplares de casais apaixonados ou obras de arte, mas é impossível encontrar traços característicos ou fundamentais que sejam capazes de embasar uma teoria que se pretenda falar sobre a verdade de ambas. Pois, do mesmo modo que tudo pelo qual vale a pena se apaixonar e a razão mesma de porque nos apaixonamos por alguém, está como que para além da nossa compreensão proposicional, a nossa capacidade de explicar a arte esbarra naquilo mesmo do qual ela retira o seu valor.

[5] Talvez outra questão possa vir a esclarecer melhor a que tipo de natureza estou tentando cercar. Quando falamos de um general que ele se entrega para o inimigo, dizemos que ele saiu derrotado, i. e., que ele abriu mão de sua capacidade de enfrentamento, capitulando seus poderes ao general adversário. Um general que se entrega para o inimigo continua a ser um general, porém é um general destituído de poder, e, nessa medida, impotente enquanto general. Mas, será que essa analogia funciona em se tratando daquilo que entendemos por arte ou paixão? Será acertado dizer que a arte ou aquela pessoa pela qual nos apaixonamos é como um inimigo que devemos capitular sob pena de sermos capitulados?

Ora, é certo que tanto a arte quando a paixão exigem uma dose entrega, mas não no mesmo sentido que a entrega de um general que desiste da batalha. A entrega da arte diz respeito à aceitação da nossa incapacidade de explicar aquilo mesmo que nos transcende, e, do mesmo modo, a paixão é justamente o estado de não resistência àquilo que não somos nós. O poder da arte e da paixão só se nos são revelados precisamente quando nos entregamos, exatamente ao contrário do general em guerra que ao se entregar perde todos os poderes. A arte e a paixão só são algo para nós na medida em que não temos controle algum sobre suas intenções e resultados. Quando abrimos mão de traçar qualquer plano para tentar explicar o que elas são ou àquilo a que elas se referem. É em virtude disso que dizemos que a arte a paixão nos afetam espontaneamente, e apenas quando entregamos as armas.

[6] Nesses termos, a arte é por definição algo indefinível. É como toda a contradição contida em uma paixão. Nós só podemos falar da arte por meio de metáforas ou por aproximações imprecisas. Porém, é impossível tentar descrevê-la como devendo ser enquadrada em um certo padrão estabelecido. Afinal de contas não seria difícil alcançar o kitch através dessa definição. A verdadeira arte é aquela que não pode ser contida em meros enunciados descritivos, mas que se mostra ao espírito, por um lado, através de um ato contemplativo da consciência, por outro, se manifesta por meio da criação ativa da existência.

[7] Assim, se me for permitido ter mostrado sem dizer, aquilo que de melhor experienciei, seja com as obras da bienal, seja nas músicas de Philip Glass, então é que o que as torna aquilo que elas são é algo da ordem do indescritível – [por não fazer nenhum sentido para nosso pensamento racional] -, a arte mostra sua obra naquilo mesmo que não somos capazes de dizer a seu respeito e, é justamente isso que faz com que nos apaixonemos e que nos permite conquistá-la apenas quando aceitamos que não podemos de modo algum controlá-la. A arte é absoluta. E para nós, carece de sentido... e paradoxalmente, é precisamente por isso que tanto a arte quando a paixão fazem com que a vida valha a pena ser vivida. São elementos sem as quais a vida é destituída de colorido, razão ou sentido.

[8] A arte não se deixa descrever. Ela é absoluta e não comporta analise lógica. Tudo que podemos fazer é criar ou contemplar e, convenhamos, já tá mais do que bom. Confesso que eu não consigo entender a mania que alguns têm por tentar explicar tudo. Tem coisas que só têm sentido porque não tem sentido, e é justamente dentre essas que a arte se encontra.

Pense na seguinte questão: - é possível encontrar as razões da paixão? A primeira vista as razões para se apaixonar não podem responder pelo sentido absoluto da paixão, pois se fosse o caso, a paixão teria uma explicação passível de descrição. Porém, aparte os evidentes sintomas que se apresentam em alguém que está apaixonado, dizemos que a paixão se da por algo inexplicável. Nesses termos, é possível dizer que tudo aquilo que é passível de descrição acerca da paixão, é por esta mesma razão outra coisa que não a paixão. Que é algo que não se deixa capturar e que não existe seu uma entrega peculiar, tal qual a arte em seu sentido mais absoluto.

[8] A arte se constitui de tal modo que se mostra, mas não se deixa capturar.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

sobre a falta...


Preciso confessar que sofro de uma disfunção fundamental,
Quando olho não deixo de imaginar o que não vejo,
Quanto toco não deixo de sentir a ausência,
Quando ouço o que me chama atenção é aquele silêncio indizível...

Eu não consigo deixar de conceber o impossível
E sem dúvida isso diz muito do que eu sou.

Quando penso, o faço por meio da fantasia...
Vivo do encanto que subjaz o fenômeno,
Na metáfora de uma poesia...

A beleza se mostra mesmo onde ela não está
Às vezes tudo que nós fazemos é colocá-la no primeiro objeto que encontramos...
Morte a expectativa.

O vento uiva na colina sem prestar atenção ao que há embaixo:
- Uma pedra e uma árvore.

domingo, 25 de dezembro de 2011

miscelânea

As palavras possuem uma incoerência interna que não as deixa apreeder. São revestidas de sua falta de conexão. Ilhas incomunicáveis. As palavras se referem sem fazer referência - mostrando sua relação com coisa alguma.

Contra o academicismo:
O pedantismo acadêmico obscureceu a busca pela verdade. O comprometimento engajado abriu lugar para um comodismo desconcertado. O valor passou a ser ditado por uma infatigável briga de egos exacerbados. Vazios. Alheios. Esfarrapados. Mecânicos em sua fingida obstinação. Descrentes em sua busca por libertação. Deixaram de buscar sentidos. Deixaram-se levar pela falta de razão. Injustos. O individualismo e a inveja cegaram os nossos mestres. Eles buscam tão somente uma auto-afirmação vazia e descrente. Escondem-se atrás de sua desoriginalidade. Virgens de criatividade. Mortos antes mesmo de acordar. Vivos para um eterno sono dogmático. Desmedidos em sua falta de modéstia. Ingênuos em seu auto-engano fingido. Escondem a sua vergonha em ares de desestimulo. Ninguém pode buscar a verdade, se eles não podem. Eles sabem que não são capazes. E você – aprenda que não depende nem precisa deles.
Nego a mim mesmo enquanto pretensão instrutiva.
Acerto porque viso à coisa alguma.
Libertação:
A fagulha por entre meus dedos deixa escapar palavras que se perdem como água no fluxo. Elas perdem sua identidade ante o agregado que lhes engendra. Palavras soltas não movem moinhos, mas unidas são capazes de fazer um verso capaz de ecoar no píncaro da mais alta montanha. A rima perdeu a vez ante um mundo que absorve pouco a pouco um existencialismo corrompido. A revolta que tenta se sustentar na falta de sentido cai contraditória no seu desejo por fundamentos, razão ou sentido. O mundo de pernas pro ar. Vai voando inconsistente. Vive o dia a dia incongruente. Somos a má leitura de nossos cânones. Fazemos de nós mesmos a interpretação rasa de nossos deuses desumanos. Humanizamos a perfeição tornando-a um objeto do mundo. Esvaziamos seu sentido. E o nosso próprio. Em uma busca retórica por aceitação. Perdemos os nossos dedos por um punhado de moedas sujas. Em nossos bolsos guardamos a crença de que os outros não passam de marionetes que podemos usar até arrebentar as cordas que lhe conferem animo. Não absorvemos bem o existencialismo e a existência. Isso nos pesa como uma corda que aperta o nosso pescoço e prende as nossas mãos. Existimos contraditórios – revoltados com o reflexo da nossa própria inexistência inconsistente.
E no mundo:
Faço parte do fenômeno que me rotina. É por isso que o desassossego me constitui. Vivo as coisas como se fossem demais para mim. Alheio àquilo que me determina. A rua que ando todos os dias para ir ter com os outros. A minha impressão do vento que me brisa. A violeta que se impõe injusta sem pedir licença. Vivo comodamente àquilo que não faz parte de mim mesmo. Sou reativo em meu desconforto ante a estabilidade. Morro em cada palavra que me supera por vir inesperada. Perco a sensibilidade em um vôo rasante sem destino. Quero outra coisa. Mas, as palavras são elas mesmas. Frias. Sujas. Negativas. Elas negam aquilo que preciso expressar para transcendê-las. Faço parte do líquido que cai para além da borda. Bordo o meu fracasso ao ritmo duma melodia desilusão. Abri mão dos conceitos necessários para distinguir o sonho da realidade. Assim, fico preso num mundo que se faz absoluto e irresolvido. Risco minha angústia com palha quebradiça. Até que vem a água e me preenche de falsas esperanças. Afogo-me naquilo que transborda do copo vazio em que me perdi. E queimo por dentro por saber que o amanhã é igualmente inescapável. Vivo a rotina do dia a dia como se estivesse morto para mim. Morro a liberdade de me fazer por meio duma revolução. Sou aquele que abriu a janela para perceber que não se pode fazer o mesmo com o mundo. A luz que me tangência é cega. Assim como o silêncio que perfaz o meu desejo frustrado por uma porta dos fundos. O todo é relativo à coisa alguma. Eis toda a metafísica dos homens. O nada se impõe selvagem e sem reservas. Sou constituído da gravidade que me joga morro abaixo. Sou a falta que me faço a mim mesmo. Apareço para mim em representação quando me ausento do mundo. Sou esse paradoxo que não se apercebe do sol que se põe no limiar da primavera. O horizonte é a minha mão apertada. E é por isso que essas palavras são a miragem que me escapa. A ilusão de me ter no centro de meus pensamentos me fez perder as palavras que nunca tive em minhas mãos.

Assim, expus e agora volto a minha rotina desassossegada.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

De quando perdemos deus

Deus... Desuso... Desgastado:

Desprovido de significado.

Deus... morreu enforcado

Pela boca do crente devotado.


Acabou – perdeu seu estatuto

Deixou de ser fundamental.

Palavra que designa o conjunto...

de um único ser inexistente:


sem importância, relevância ou significância...

Hipótese: Deus - essência do gratuito

Deus - a contingência


E é assim que se manifesta na

Existência:

Deus é o que se fez à sua própria

Vontade;


Aquele que se fez reflexo de si mesmo

A despeito do espelho absurdo

Que refletia o nada do seu reflexo


[Assim, Deus é o bastardo responsável

que escolhe(u) a si mesmo].