As palavras possuem uma incoerência interna que não as deixa apreeder. São revestidas de sua falta de conexão. Ilhas incomunicáveis. As palavras se referem sem fazer referência - mostrando sua relação com coisa alguma.
Contra o academicismo:
O pedantismo acadêmico obscureceu a busca pela verdade. O comprometimento engajado abriu lugar para um comodismo desconcertado. O valor passou a ser ditado por uma infatigável briga de egos exacerbados. Vazios. Alheios. Esfarrapados. Mecânicos em sua fingida obstinação. Descrentes em sua busca por libertação. Deixaram de buscar sentidos. Deixaram-se levar pela falta de razão. Injustos. O individualismo e a inveja cegaram os nossos mestres. Eles buscam tão somente uma auto-afirmação vazia e descrente. Escondem-se atrás de sua desoriginalidade. Virgens de criatividade. Mortos antes mesmo de acordar. Vivos para um eterno sono dogmático. Desmedidos em sua falta de modéstia. Ingênuos em seu auto-engano fingido. Escondem a sua vergonha em ares de desestimulo. Ninguém pode buscar a verdade, se eles não podem. Eles sabem que não são capazes. E você – aprenda que não depende nem precisa deles.
Nego a mim mesmo enquanto pretensão instrutiva.
Acerto porque viso à coisa alguma.
Libertação:
A fagulha por entre meus dedos deixa escapar palavras que se perdem como água no fluxo. Elas perdem sua identidade ante o agregado que lhes engendra. Palavras soltas não movem moinhos, mas unidas são capazes de fazer um verso capaz de ecoar no píncaro da mais alta montanha. A rima perdeu a vez ante um mundo que absorve pouco a pouco um existencialismo corrompido. A revolta que tenta se sustentar na falta de sentido cai contraditória no seu desejo por fundamentos, razão ou sentido. O mundo de pernas pro ar. Vai voando inconsistente. Vive o dia a dia incongruente. Somos a má leitura de nossos cânones. Fazemos de nós mesmos a interpretação rasa de nossos deuses desumanos. Humanizamos a perfeição tornando-a um objeto do mundo. Esvaziamos seu sentido. E o nosso próprio. Em uma busca retórica por aceitação. Perdemos os nossos dedos por um punhado de moedas sujas. Em nossos bolsos guardamos a crença de que os outros não passam de marionetes que podemos usar até arrebentar as cordas que lhe conferem animo. Não absorvemos bem o existencialismo e a existência. Isso nos pesa como uma corda que aperta o nosso pescoço e prende as nossas mãos. Existimos contraditórios – revoltados com o reflexo da nossa própria inexistência inconsistente.
E no mundo:
Faço parte do fenômeno que me rotina. É por isso que o desassossego me constitui. Vivo as coisas como se fossem demais para mim. Alheio àquilo que me determina. A rua que ando todos os dias para ir ter com os outros. A minha impressão do vento que me brisa. A violeta que se impõe injusta sem pedir licença. Vivo comodamente àquilo que não faz parte de mim mesmo. Sou reativo em meu desconforto ante a estabilidade. Morro em cada palavra que me supera por vir inesperada. Perco a sensibilidade em um vôo rasante sem destino. Quero outra coisa. Mas, as palavras são elas mesmas. Frias. Sujas. Negativas. Elas negam aquilo que preciso expressar para transcendê-las. Faço parte do líquido que cai para além da borda. Bordo o meu fracasso ao ritmo duma melodia desilusão. Abri mão dos conceitos necessários para distinguir o sonho da realidade. Assim, fico preso num mundo que se faz absoluto e irresolvido. Risco minha angústia com palha quebradiça. Até que vem a água e me preenche de falsas esperanças. Afogo-me naquilo que transborda do copo vazio em que me perdi. E queimo por dentro por saber que o amanhã é igualmente inescapável. Vivo a rotina do dia a dia como se estivesse morto para mim. Morro a liberdade de me fazer por meio duma revolução. Sou aquele que abriu a janela para perceber que não se pode fazer o mesmo com o mundo. A luz que me tangência é cega. Assim como o silêncio que perfaz o meu desejo frustrado por uma porta dos fundos. O todo é relativo à coisa alguma. Eis toda a metafísica dos homens. O nada se impõe selvagem e sem reservas. Sou constituído da gravidade que me joga morro abaixo. Sou a falta que me faço a mim mesmo. Apareço para mim em representação quando me ausento do mundo. Sou esse paradoxo que não se apercebe do sol que se põe no limiar da primavera. O horizonte é a minha mão apertada. E é por isso que essas palavras são a miragem que me escapa. A ilusão de me ter no centro de meus pensamentos me fez perder as palavras que nunca tive em minhas mãos.
Assim, expus e agora volto a minha rotina desassossegada.
Tu está disposto a romper com a Academia? A academia tem vícios, mas quem sabe é justamente aqueles mais criticamos que tem um respeito maior pela própria vontade!
ResponderExcluirAbração.
p.s. Tá muito bonito como texto "crítico".
Creio que não. Mas quero tentar passar por ela tão pouco corrompido quanto possível. Ela é como uma faca. Podemos usar ela bem e colocar manteiga no pão ou podemos nos cortar a nós mesmos.
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