“...as últimas páginas
de um livro
já estão nas primeiras.”
A. Camus
Toda inspiração assim como toda paixão ou
revolta exigem uma metafísica subjacente. Um poema só se deixa escrever, pois a
metáfora que ele representa diz respeito a um verso que lhe escapa. A palavra é
dura e irredutível, mas relaciona ritmos através da diafonia dos signos. Não há
nada nela que se deixe capturar sem que antes tenhamos que nos capitular ante
a sua resistência.
Quem nunca pensou que podia
expressar a completude da natureza em sua total e completa inteireza naquela
fração fugaz e sincera de entrega? Quem nunca viu a transcendência naquele
primeiro raio de um tímido sol na melhor manhã de uma breve vida endurecida
pela rotina de todo o resto? Quem nunca se perdeu em devaneios selvagens no
revés inesperado de uma canção [ou fragmento de memória persistente] que se
impunha sem pedir passagem para os sentidos [e não se permitia dobrar engolfada
pelo tempo]?
Escrevo meus versos em prosa pela
simples vontade de fazê-los diferentemente do esperado. Escrevo-os com a
sensação de que eles foram feitos para um silêncio acolhedor e inaudível. Versos
que inquietos querem rasgar a folha em que se mostram para se perder dentro
dum silêncio intransponível. Escrevo com palavras que não se deixam capturar,
dizer ou expressar o que me sinto, pois revoltosas negam o sentido que elas
deveriam representar.
Mas, a despeito disso se fazem
presentes ao reverso. Livres pelo revés que não lhes negou acolhida... O mundo
perdeu seu avatar numa jogada inesperada de cartas. A aranha que tecia sua teia
predadora, calma e suavemente, tombou fria e pálida numa reviravolta inesperada
do destino.
E eu que devo escrever os versos
que abrem as cortinas da linguagem acabei esquecendo os adjetivos. Acabou que
fiz um poema de substantivos sem estrofes nem qualidades. Quando quis voltar
para o começo vi que não dava mais tempo. Pois, a tinta já havia secado. Era tarde
demais e o [mundo já estava engendrado] ou engalanado.
O que restou foi uma morte
indecente e prematura e a frustração - de um reflexo distorcido do espelho que
me resistiu a minha imagem. Perdi-me nesse poema natimorto, como uma luz que
frustra sua incandescente dentro da sombra que lhe contém ao contrário.
E nesse ritmo falso, triste,
parado –
Fiz de minhas palavras inexpressivas
um absurdo sem paredes, forro ou sustentação. Ri das bordas que pretendiam
contrariar essa tontura indisposta da manhã de ontem em que me encontrava sem
botas.
O oftalmologista falava de
felicidade como se fosse alegria. Disse que meus olhos eram diferentes. Cada um
via o mundo de uma forma distinta. Um via os detalhes, mas se perdia nas
generalidades. O outro era capaz de abstrações, mas se perdia na minúcia. Não
saberia dizer qual é qual, pois não tenho a aparelhagem daquele oculista cego
da própria vida e surdo para seus desejos.
Desde então – e ainda antes do
princípio – tornou-se evidente que minha mira estava fundada numa contradição
prática, a saber:
Tanto minha inspiração quanto
minha revolta apareceram como formigas que colecionam palavras na esperança de
construir um castelo de areia - com cartas - que se sustente até o final do
próximo inverno. Até porque nenhuma metafísica pode ir além da próxima estação.