quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

cotidiano, exagero e reflexão...


“...as últimas páginas de um livro
 já estão nas primeiras.”
A.      Camus


Toda inspiração assim como toda paixão ou revolta exigem uma metafísica subjacente. Um poema só se deixa escrever, pois a metáfora que ele representa diz respeito a um verso que lhe escapa. A palavra é dura e irredutível, mas relaciona ritmos através da diafonia dos signos. Não há nada nela que se deixe capturar sem que antes tenhamos que nos capitular ante a sua resistência.

Quem nunca pensou que podia expressar a completude da natureza em sua total e completa inteireza naquela fração fugaz e sincera de entrega? Quem nunca viu a transcendência naquele primeiro raio de um tímido sol na melhor manhã de uma breve vida endurecida pela rotina de todo o resto? Quem nunca se perdeu em devaneios selvagens no revés inesperado de uma canção [ou fragmento de memória persistente] que se impunha sem pedir passagem para os sentidos [e não se permitia dobrar engolfada pelo tempo]?


Escrevo meus versos em prosa pela simples vontade de fazê-los diferentemente do esperado. Escrevo-os com a sensação de que eles foram feitos para um silêncio acolhedor e inaudível. Versos que inquietos querem rasgar a folha em que se mostram para se perder dentro dum silêncio intransponível. Escrevo com palavras que não se deixam capturar, dizer ou expressar o que me sinto, pois revoltosas negam o sentido que elas deveriam representar.


Mas, a despeito disso se fazem presentes ao reverso. Livres pelo revés que não lhes negou acolhida... O mundo perdeu seu avatar numa jogada inesperada de cartas. A aranha que tecia sua teia predadora, calma e suavemente, tombou fria e pálida numa reviravolta inesperada do destino.


E eu que devo escrever os versos que abrem as cortinas da linguagem acabei esquecendo os adjetivos. Acabou que fiz um poema de substantivos sem estrofes nem qualidades. Quando quis voltar para o começo vi que não dava mais tempo. Pois, a tinta já havia secado. Era tarde demais e o [mundo já estava engendrado] ou engalanado.


O que restou foi uma morte indecente e prematura e a frustração - de um reflexo distorcido do espelho que me resistiu a minha imagem. Perdi-me nesse poema natimorto, como uma luz que frustra sua incandescente dentro da sombra que lhe contém ao contrário.


E nesse ritmo falso, triste, parado –

Fiz de minhas palavras inexpressivas um absurdo sem paredes, forro ou sustentação. Ri das bordas que pretendiam contrariar essa tontura indisposta da manhã de ontem em que me encontrava sem botas.

O oftalmologista falava de felicidade como se fosse alegria. Disse que meus olhos eram diferentes. Cada um via o mundo de uma forma distinta. Um via os detalhes, mas se perdia nas generalidades. O outro era capaz de abstrações, mas se perdia na minúcia. Não saberia dizer qual é qual, pois não tenho a aparelhagem daquele oculista cego da própria vida e surdo para seus desejos.


Desde então – e ainda antes do princípio – tornou-se evidente que minha mira estava fundada numa contradição prática, a saber:


Tanto minha inspiração quanto minha revolta apareceram como formigas que colecionam palavras na esperança de construir um castelo de areia - com cartas - que se sustente até o final do próximo inverno. Até porque nenhuma metafísica pode ir além da próxima estação.

   

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