terça-feira, 13 de março de 2012

sobre o pensamento e o regaço


O pensamento por si só é capaz de estruturar um emaranhado cristalino de palavras e cadeias complexas de idéias como a do regaço de uma cachoeira pura e virginal banhado pelo fino brilho místico do luar, porém, nunca é capaz de ter parte nessa cena se não abraça a fé de sua certeza. O homem que não reconhece que o pensamento por si só nunca é o bastante é como um mágico que perdeu de si todo encantamento que fazia com que todos ficassem maravilhados de si.

Não aceitar o incognoscível é cegar para o caráter mutável da vida. O mundo é dinâmico e escorregadio como uma pista de gelo, as coisas estão constantemente se transformando em seus opostos. E nem é preciso ir tão longe para ver isso, vejamos a nos mesmos em nossos espelhos e nos deparemos com a transformação.

Uma natureza estaticamente perfeita é o desejo de um pensamento ingenuamente deturpado. É como um pirulito que nos é negado por um Hércules qualquer de quem não temos poder para lhe tomar a força. Só alguém muito sem noção vai sequer perder algum tempo planejando algum modo de tirar o mistério do mundo.

Somos a cada momento aquilo que nós fazemos dele. Seja como crentes ou lunáticos, descrentes ou espirituosos. Somos o modo pelo qual nos manifestamos nesse mundo, seja com mistério ou sem graça nem valor,

e, se quisermos extrair seu néctar mais doce, precisamos aceitar as abelhas e o seu milagre aerodinâmico.

Se quisermos viver, precisamos aceitar que a poesia é parte constitutiva da vida, a despeito de toda lógica que nos impede de entrar de cabeça nos regaços mais límpidos e profundos de nossos pensamentos.

sábado, 10 de março de 2012

tentativa I


Quanto me falta pra descobrir que as coisas são feitas por uma razão inexplicável e incompreensível. Queria voltar ao meu estado de ignorância, de busca por sentimentos falsos e vãos. Queria não ser frio, e esperava que as sucessões de erros de cálculo me fizessem perceber que não sou um bom racionalizador. Queria me voltar contra mim mesmo e como represália me tornar um sentimental, aproveitar os sonhos, os cantos, as paisagens e as dores da vida, e senti-las tão profunda e intensamente. Mas não. Não as sinto e não as compreendo. Fico a mercê do meu poder calculativo, deliberando meus erros, abstraindo os sentidos [ou subtraindo os sentidos]. Pois, mais do que qualquer coisa eu sei que só a razão não basta. Mas mais do que isso, há confusão em meus pensamentos, talvez me esteja propício para escrever versos. Talvez devesse tomá-los como tomo teus soluços e suspiros, devia me embriagar de tuas lágrimas, e esperar que elas fizessem me compadecer um sentimento que sempre sonhei que pudesse acordar tendo. Nunca o tive. 

Esperei por mais tempo que devia, antes pensava poesia, livre de significações, de fronte para uma ante-sala, acanhado, olhando à parede, olhando às marcas do tempo na parede. Frustrei a lógica [e falei sem medo]; respeitando a peculiaridade poética da irracionalidade sentimental; não me importei com conseqüências indesejadas, tampouco parei por não respeitar leis estéticas obtusas e vagas; falei com a dor da minha boca, e senti o pavor das minhas entranhas; estranho. Vivo estrangeiro, vagueando terras sem esmo; ermo; insólito eremita inconsolado, roto pela grandeza dos meus sonhos; esfarrapado pelo peso de meus fracassos. Um dia sonhei ser velho, vi-me a beira da morte, nauseado pelas falsas glórias, com vertigem pela fugacidade e o contentamento.

Esperei três horas para acordar. Não por estar com sono, mas porque os meus pés estavam destapados. Vi o peso de meu tempo, vi o fardo dos meus sonhos; e os abandonei; eram grandiosos demais para ninguém; estava na beira; via a lua me sorrir com um sorriso quase vulgar. Vi o céu se abrir com uma calma peculiar. Esperei. Esperei pelos versos, que me falharam; hoje me arrependo pelo meu voto de silêncio; ninguém merece ver o que eu vi sem poder falar nada; ninguém merece ser que eu fui sem poder abrir a boca;

Minutos atrás versava na chuva, fumava o cigarro da minha vida, e as gotas impregnavam a poesia em meu pensamento; sentia como a chuva em minha face – palavras -; era um balbucio, gaguejava pensamentos aéreos, hesitava com palavras fingidas a dor que não me tinha. Os acasos da vida, as cenas improváveis que vivemos todos os dias; de tal acaso retiro o peso da minha vida; vejo o preço das minhas escolhas como grilhões; como cordas e amarras;

Minha inexpressiva capacidade de relacionar. Talvez por isso busque os absolutos; lá me entendo; sempre um solitário, sempre excluindo sentidos e relações. Num vago mundo mágico e ilusório; construi de minha incoerência uma fantasia; gastei com o tempo minha reserva de alegria; abri mão dos meus contrários; tornei-me um lógico [talvez algo que sempre fui]; o preço foi abrir mão das possibilidades incoerentes das relações e dos sentimentos;

Busco com todas as minhas forças o desconforto; um desconforto absoluto; saboto minhas expectativas, mascaro meus sonhos; simulo sentimentos insensíveis; dissimulo na falta de pensamentos; [e isso para fingir uma leveza pretensiosa, um falso sabor de liberdade]. Não dá! Não consigo continuar carregando esse fardo; esse peso indesejado que me faz curvar;

Faltou-me viver a vida. E não por alguma alegria fugaz ou por qualquer motivo [das inumeráveis desculpas que nos impomos] irresponsável. Não vivi por escolha; acomodei-me com meu simulacro, falsifiquei minha caligrafia para parecer santo [eu, o descrente]; logrei os sentidos para parecer bom [eu, o egoísta]; acomodei as metáforas para parecer gênio [eu, o acomodado]; se sou santo, bom ou gênio, é porque aprendi desde cedo a fingir o que não era. Como não sentia, precisava imaginar metáforas e analogias para que não me percebesse pedra; osso; frio; hoje em dia sou um quase-humano; finjo que não me sou; [fazendo de mim meu fingimento]

Eu e meu deserto; talvez nunca estive onde estou. Sinto-me no deserto; e chove tanto na rua... aqui dentro é frio e não sinto o gelo em meus pés. Mas nada que não tenha sentido antes; o infortúnio de uma vida não aproveitada, a falta de apreço; a acomodação. Queria sair correndo; mas o deserto é movediço, e me afundo em desilusão.


Vendo minha face [no espelho] constato que sou estranho a minha carne; sou alheio ao corpo que me faz jus; carrego meu fardo indolente [com todo o peso do insensível]. Vivo como um espectro; mas fora...
Escrevo. Vivo minha busca letra por símbolo; palavra por sentido; analogia por metáfora; procuro meu ritmo no insustentável; conquisto rimas por distração; vivo como nas águas do rio de Heráclito: fluo [,seja por derivação, seja por abstração] na precisão de meu movimento; vou [,como se nada houvesse] ao encontro da abstração e da poesia.