Em que rua está a porta que dá
para fora da rua
ou que dissipa essa turva
multidão hesitante?
como um copo quebrado –
nem meio cheio, nem meio vazio,
que se desfaz em caco, seu líquido
opaco,
espalhado pelo chão.
Em que tinta esta o sentido dado
para fora da linguagem
ou à palavra que transborda o
mundo –
para além do que pode crer
o meu vão pensamento desfigurado?
Como a areia derramada da
ampulheta
ou no punhado de formigas
empilhadeiras –
carregando o fardo do próprio
sustento –
que se esvaem sem dar conta desse
tempo despedaçado
em que jogo de cartas desviradas
ou em qual beira de estrada de
caminho ladrilhado
ou debaixo de qual árvore não
cortada se revela –
numa coisa ou na sua sombra –
esse desejo pelo transcender?
Como num balde despejado...
Debaixo de qual degrau
ou acima de qual escada
ou no fim de qual elevador
se alcança a tal dita felicidade?
Esse líquido viscoso derramado...
Por trás de que mapa ou no fim de
qual arco-íris
ou em que manifestação do
descontentamento
se esconde o que faz com que tudo
seja diferente?
[No lápis que segue escrevendo
mesmo desapontado...
Por um rabisco de propósito...]
Fora de qual caverna ou em qual
parada de ônibus
ou banco de praça há um lampejo
do sol verdadeiro?
Esse peixe pescado com certeza absoluta...
Essa causa final e sentido da
vida...
Onde está o grito que supera o
silêncio?
Que
horas o teu relógio te desperta?
Por
onde anda a saída de incêndio?
No gelo derretido ou numa
possível volta de bicicleta à noite pela cidade.
O sonho sem partido – abstrato e
indefinido –
de se poder pagar pela volta no
ônibus
apenas e não mais do que é devido
[não é um tão somente mero
detalhe,
um peso – quase - sem valor que
carregamos no bolso,
ou três árvores a menos em uma
rua qualquer,
mas o desejo de que do início ao
fim da vida
nos serão dadas condições para
que seja possível
buscarmos aquilo que nos
realiza...
ou é tão absurdo assim querer se
sentir seguro nas mãos do estado?].
O fogo já queima a carne há muito
tempo,
é chegada à hora de abrir mão da
luva apertada do conformismo
que parado deixa-se entorpecido,
ou dos distantes olhos
descomprometidos e desinteressados,
Hoje é o parto em que despido me
despeço desses sapatos apertados,
e mesmo sob cacos de vidro
defendo o direito e o integro,
destratados e transgredido,
violados e corrompidos,
as minorias, os fracos, calados e
oprimidos...
Hoje parto para rua como uma
correnteza
contra um muro de ignorância,
violência
e abuso do poder que gere para si
o que deveria zelar para o povo.
Hoje parto numa redenção
iluminada
no intento de mudar que vai às
ruas
num ato no corredor, ou no
solidário lenço branco na janela
de cada casa que acredita ser
possível,
- cantar à não-violenta
desobediência
com pés, mãos, palavras, gritos,
vozes ou flores,
contra essa revelada sombra de
opressão
que quer instalar – na cortina de
fumaça ou pelo medo –
algemas intolerantes da repressão
ou grilhões terroristas da
ditadura,
contra a distorção da informação
canto – à cura da alienação e da
loucura.
Se engajar é sair, quebrar o
silêncio
A marcha é a porta de saída do
incêndio.
Quem se manifesta?

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