quinta-feira, 20 de junho de 2013

Saída de incêndio



Em que rua está a porta que dá para fora da rua
ou que dissipa essa turva multidão hesitante?
como um copo quebrado –
nem meio cheio, nem meio vazio,
que se desfaz em caco, seu líquido opaco,
espalhado pelo chão.

Em que tinta esta o sentido dado para fora da linguagem
ou à palavra que transborda o mundo –
para além do que pode crer
o meu vão pensamento desfigurado?

Como a areia derramada da ampulheta
ou no punhado de formigas empilhadeiras –
carregando o fardo do próprio sustento –
que se esvaem sem dar conta desse tempo despedaçado

em que jogo de cartas desviradas
ou em qual beira de estrada de caminho ladrilhado
ou debaixo de qual árvore não cortada se revela –
numa coisa ou na sua sombra –
esse desejo pelo transcender?

Como num balde despejado...

Debaixo de qual degrau
ou acima de qual escada
ou no fim de qual elevador
se alcança a tal dita felicidade?

Esse líquido viscoso derramado...

Por trás de que mapa ou no fim de qual arco-íris
ou em que manifestação do descontentamento
se esconde o que faz com que tudo seja diferente?

[No lápis que segue escrevendo mesmo desapontado...
Por um rabisco de propósito...]

Fora de qual caverna ou em qual parada de ônibus
ou banco de praça há um lampejo do sol verdadeiro?
Esse peixe pescado com certeza absoluta...
Essa causa final e sentido da vida...

Qual a válvula de escape ou passagem secreta?
Onde está o grito que supera o silêncio?
Que horas o teu relógio te desperta?
Por onde anda a saída de incêndio?


No gelo derretido ou numa possível volta de bicicleta à noite pela cidade.
O sonho sem partido – abstrato e indefinido –
de se poder pagar pela volta no ônibus
apenas e não mais do que é devido

[não é um tão somente mero detalhe,
um peso – quase - sem valor que carregamos no bolso,
ou três árvores a menos em uma rua qualquer,

mas o desejo de que do início ao fim da vida
nos serão dadas condições para que seja possível
buscarmos aquilo que nos realiza...

ou é tão absurdo assim querer se sentir seguro nas mãos do estado?].

O fogo já queima a carne há muito tempo,
é chegada à hora de abrir mão da luva apertada do conformismo
que parado deixa-se entorpecido,
ou dos distantes olhos descomprometidos e desinteressados,

Hoje é o parto em que despido me despeço desses sapatos apertados,
e mesmo sob cacos de vidro defendo o direito e o integro,
destratados e transgredido, violados e corrompidos,
as minorias, os fracos, calados e oprimidos...

Hoje parto para rua como uma correnteza
contra um muro de ignorância, violência
e abuso do poder que gere para si
o que deveria zelar para o povo.

Hoje parto numa redenção iluminada
no intento de mudar que vai às ruas
num ato no corredor, ou no solidário lenço branco na janela
de cada casa que acredita ser possível,

- cantar à não-violenta desobediência
com pés, mãos, palavras, gritos, vozes ou flores,
contra essa revelada sombra de opressão
que quer instalar – na cortina de fumaça ou pelo medo –

algemas intolerantes da repressão
ou grilhões terroristas da ditadura,
contra a distorção da informação
canto – à cura da alienação e da loucura.

Se engajar é sair, quebrar o silêncio
A marcha é a porta de saída do incêndio.

Quem se manifesta?


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