Quanto me falta pra descobrir que
as coisas são feitas por uma razão inexplicável e incompreensível. Queria
voltar ao meu estado de ignorância, de busca por sentimentos falsos e vãos.
Queria não ser frio, e esperava que as sucessões de erros de cálculo me fizessem
perceber que não sou um bom racionalizador. Queria me voltar contra mim mesmo e
como represália me tornar um sentimental, aproveitar os sonhos, os cantos, as
paisagens e as dores da vida, e senti-las tão profunda e intensamente. Mas não.
Não as sinto e não as compreendo. Fico a mercê do meu poder calculativo,
deliberando meus erros, abstraindo os sentidos [ou subtraindo os sentidos].
Pois, mais do que qualquer coisa eu sei que só a razão não basta. Mas mais do
que isso, há confusão em meus pensamentos, talvez me esteja propício para
escrever versos. Talvez devesse tomá-los como tomo teus soluços e suspiros,
devia me embriagar de tuas lágrimas, e esperar que elas fizessem me compadecer
um sentimento que sempre sonhei que pudesse acordar tendo. Nunca o tive.
Esperei por mais tempo que devia, antes
pensava poesia, livre de significações, de fronte para uma ante-sala, acanhado,
olhando à parede, olhando às marcas do tempo na parede. Frustrei a lógica [e
falei sem medo]; respeitando a peculiaridade poética da irracionalidade
sentimental; não me importei com conseqüências indesejadas, tampouco parei por
não respeitar leis estéticas obtusas e vagas; falei com a dor da minha boca, e
senti o pavor das minhas entranhas; estranho. Vivo estrangeiro, vagueando terras
sem esmo; ermo; insólito eremita inconsolado, roto pela grandeza dos meus
sonhos; esfarrapado pelo peso de meus fracassos. Um dia sonhei ser velho, vi-me
a beira da morte, nauseado pelas falsas glórias, com vertigem pela fugacidade e
o contentamento.
Esperei três horas para acordar.
Não por estar com sono, mas porque os meus pés estavam destapados. Vi o peso de
meu tempo, vi o fardo dos meus sonhos; e os abandonei; eram grandiosos demais
para ninguém; estava na beira; via a lua me sorrir com um sorriso quase vulgar.
Vi o céu se abrir com uma calma peculiar. Esperei. Esperei pelos versos, que me
falharam; hoje me arrependo pelo meu voto de silêncio; ninguém merece ver o que
eu vi sem poder falar nada; ninguém merece ser que eu fui sem poder abrir a boca;
Minutos atrás versava na chuva,
fumava o cigarro da minha vida, e as gotas impregnavam a poesia em meu
pensamento; sentia como a chuva em minha face – palavras -; era um balbucio,
gaguejava pensamentos aéreos, hesitava com palavras fingidas a dor que não me
tinha. Os acasos da vida, as cenas improváveis que vivemos todos os dias; de
tal acaso retiro o peso da minha vida; vejo o preço das minhas escolhas como
grilhões; como cordas e amarras;
Minha inexpressiva capacidade de
relacionar. Talvez por isso busque os absolutos; lá me entendo; sempre um
solitário, sempre excluindo sentidos e relações. Num vago mundo mágico e
ilusório; construi de minha incoerência uma fantasia; gastei com o tempo minha
reserva de alegria; abri mão dos meus contrários; tornei-me um lógico [talvez
algo que sempre fui]; o preço foi abrir mão das possibilidades incoerentes das
relações e dos sentimentos;
Busco com todas as minhas forças
o desconforto; um desconforto absoluto; saboto minhas expectativas, mascaro
meus sonhos; simulo sentimentos insensíveis; dissimulo na falta de pensamentos;
[e isso para fingir uma leveza pretensiosa, um falso sabor de liberdade]. Não
dá! Não consigo continuar carregando esse fardo; esse peso indesejado que me
faz curvar;
Faltou-me viver a vida. E não por
alguma alegria fugaz ou por qualquer motivo [das inumeráveis desculpas que nos
impomos] irresponsável. Não vivi por escolha; acomodei-me com meu simulacro,
falsifiquei minha caligrafia para parecer santo [eu, o descrente]; logrei os
sentidos para parecer bom [eu, o egoísta]; acomodei as metáforas para parecer
gênio [eu, o acomodado]; se sou santo, bom ou gênio, é porque aprendi desde
cedo a fingir o que não era. Como não sentia, precisava imaginar metáforas e
analogias para que não me percebesse pedra; osso; frio; hoje em dia sou um
quase-humano; finjo que não me sou; [fazendo de mim meu fingimento]
Eu e meu deserto; talvez nunca
estive onde estou. Sinto-me no deserto; e chove tanto na rua... aqui dentro é
frio e não sinto o gelo em meus pés. Mas nada que não tenha sentido antes; o
infortúnio de uma vida não aproveitada, a falta de apreço; a acomodação. Queria
sair correndo; mas o deserto é movediço, e me afundo em desilusão.
Vendo minha face [no espelho]
constato que sou estranho a minha carne; sou alheio ao corpo que me faz jus;
carrego meu fardo indolente [com todo o peso do insensível]. Vivo como um espectro;
mas fora...
Escrevo. Vivo minha busca letra
por símbolo; palavra por sentido; analogia por metáfora; procuro meu ritmo no
insustentável; conquisto rimas por distração; vivo como nas águas do rio de
Heráclito: fluo [,seja por derivação, seja por abstração] na precisão de meu
movimento; vou [,como se nada houvesse] ao encontro da abstração e da poesia.